#21| Como montar um ecossistema de cadernos de pesquisa, organização e autorreflexão?
Ou sobre como justificar o hábito de comprar tantos cadernos!
ANNEDOTA
Aqui no meu escritório, tenho uma caixa de plástico roxo enorme, abarrotada de cadernos preenchidos desde a pré-adolescência. Eu gostava de anotar os meus pensamentos, coisas legais que encontrava pelo caminho, meditações, poesia e de organizar as finanças, mas ia só preenchendo cadernos sem nenhuma intenção específica, além de saborear as palavras.
Mas no aniversário de quinze anos, ganhei um diário com páginas amareladas e lisas, que exalavam um aroma perfumado bem suave. Acredito que foi esse caderno que me mostrou o quão agradável o processo de escrita à mão poderia ser pra além da utilidade. Esse caderno é importante pra mim, porque inaugurou um ritual diário de escrita na escrivaninha, antes de dormir.
Então, enquanto as cadernetas baratinhas funcionavam como um “caderno de tudo”, que eu carregava pra todo lado (também tinha endereços, números de telefone, lista de músicas), o diário de páginas amareladas era preenchido com meus planos, angústias, desafios cotidianos e todas aquelas experiências de uma jovem nerd provinciana.
Naquela época, eu estava longe de ser uma pessoa organizada e tinha uma dificuldade imensa em manter a agenda, por mais legal que fosse o tema escolhido. Era sempre a mesma história: eu começava o ano animada, preenchendo em janeiro, mas, ao longo dos meses, o hábito se perdia.
Olhando para essa época, consigo compreender que havia um esboço do sistema que uso hoje em dia, mas me faltava o porquê de me organizar; afinal de contas, o diário para elaborar sentimentos e o processo de “captura” (Ahrens, 2017) de ideias funcionavam bem.
Por qué se organizar?
Muitas vezes, nós temos ideias sobre organização que são mistificadoras. Além disso, para quem passou pelo ensino superior, é bastante comum termos um comportamento aversivo em relação a qualquer conhecimento que remeta ao desenvolvimento pessoal. E isso não é por acaso: os livros que prometem nos ensinar a sermos “pessoas melhores” são, geralmente, mal escritos, alinhados à ideologia dominante. Há também aquela voz ranzinza dizendo nas nossas mentes que “deveríamos investir nosso tempo em leituras elevadas”.
Sem dúvida alguma, essa máxima já foi mais correta do que é atualmente. Primeiro, porque nunca antes a rotina acadêmica envolveu um ritmo de publicações tão intenso, somado a tantas outras atribuições e responsabilidades como hoje em dia (Boyd, 2022). Segundo, porque não estamos no século XIX, precisamos focar em melhorar a qualidade de nossas vidas, cuidar da saúde, da alimentação e dormir bem. A essa altura, já compreendemos que somos pessoas que pesquisam, o que dispensa um estilo de vida sacrificial ou “morrer pela ciência” (Satrapi, 2007).
Desse modo, o desejo de pesquisar já exige uma preocupação com a “atenção plena e sustentada”, mas isso não é suficiente para ser “produtiva” ou organizada. Voltando à minha versão adolescente, que se encantou com a experiência de introspecção com diário, não havia um motivo delineado para eu me lembrar de me dedicar a aquele “hábito regular de introspecção” (Carroll, 2018, p. 32), mas eu queria repetir uma sensação confortável. É diferente da relação com a agenda, que eu via como um meio de me tornar organizada, de fazer a coisa certa, mas sem algo que me conectasse à minha intenção. Na verdade, se eu estudava, tocava violão, assistia à televisão na hora que eu queria e as únicas constrições eram o tempo do colégio, não havia o menor sentido em gerenciar o tempo (eu tinha todo o tempo do mundo, parece).
Além disso, como a maioria de nós, a minha antiga versão falhava ao considerar organização uma ideia autoevidente ou ligada ao querer. Na verdade, organização demanda, antes de tudo, que tenhamos um objetivo: “quero me organizar por quê?”. A partir do instante em que delineamos a razão de querermos nos organizar (ex.: planejar uma viagem, um TCC, organizar a casa, reservar tempo de leitura, etc.), podemos escolher o sistema que nos ajude a construir o caminho rumo à concretização do objetivo.

Pra pessoas neurodivergentes, recomendo começar lendo O Método Bullet Journal (Carroll, 2018), porque o sistema é simples e, talvez, a simplicidade ajude a manter a consistência. O autor começa o livro contextualizando a origem do sistema. Segundo ele, ter um transtorno de aprendizado,como o TDAH, dificultou bastante a sua jornada escolar na década de 1980. E foi a partir de sua dificuldade em se concentrar no presente e em lidar com a enxurrada de ideias que ele começou a desenvolver um sistema que reunia “agenda, diário, bloco de anotações, lista de afazeres e caderno de desenho” (Carroll, 2018, p. 15). Pra além do que costumamos ver por aí, o bullet journal (ou BuJo) é mais do que um “diário de tópicos”; é uma ferramenta de organização, registro e reflexão. Até mesmo por isso, o autor recomenda que começemos usando um caderno só pra reunir todas as áreas da vida. Então, de início, você só precisa de um caderno que possa levar para qualquer lugar e de uma caneta com a qual goste de escrever.
Aprender sobre o sistema a partir da perspectiva do autor é bastante útil, pois ele explica o sentido de cada elemento, como, por exemplo, o uso do índice, a numeração das páginas e, claro, o modo de estruturar os projetos pessoais. Além disso, na perspectiva dele, toda a preocupação com design e lettering tende a desviar o foco do objetivo principal, portanto, o ideal é focar no sistema e na adaptação às suas necessidades. Caso você queira focar na estética, busque um modo que não interfira na consistência a longo prazo. Quanto mais simples, maior a probabilidade de você manter a rotina, especialmente pra quem precisa gerenciar a energia.
Conhecendo o seu processo
A organização parte de um objetivo bem definido e, a partir disso, nós desenvolvemos um modo de medir e acompanhar os resultados. Por exemplo, não adianta monitorar as horas de sono só pra checar, porque o número em si não diz nada; é importante analisar os dados e agir a partir do que concluir deles. Então, se você tem insônia, mapear o sono possibilita trabalhar melhor o ritual antes de ir deitar; se você deseja ler mais e melhor, precisa criar um mecanismo de quantificar e medir a qualidade num intervalo de tempo para, depois disso, desenvolver estratégias que melhorem seu desempenho.
Mas tudo isso demanda um conhecimento mais claro da sua rotina e do seu fluxo de trabalho. Quais são as suas demandas pessoais? Você é responsável por outras pessoas ou pelo seu espaço? Você contribui com algum coletivo? Quais os horários bloqueados para trabalho ou estudo? Vale a pena usar um caderno ou planner semanal para visualizar a sua rotina, identificar horas ociosas e gerenciar as tarefas e projetos pessoais.

Depois de identificar o horário livre, você pode focar no seu processo criativo, desde ter a ideia de um artigo até enviar a versão revisada conforme as sugestões dos avaliadores. Conhecer o seu fluxo tem a ver com administrar a entrada (ou seja, o que você lê, assiste, pensa) e a saída (resultado) de ideias (recomendo usar um fluxograma para identificar o processo). Nesse sentido, você pode optar por capturar as ideias, compor uma lista e registrar tudo isso no seu caderno geral. Esse caderno precisa de revisão constante, principalmente pra não perder informações e referências importantes. Você pode usar aplicativos para organizar essas informações ou migrar para um caderno que esteja dedicado a determinado projeto.
Outras áreas da vida, além da coleta de ideias e do registro acadêmico, podem precisar de espaços dedicados também. Nesse sentido, é importante voltar ao seu fluxo de trabalho e à sua rotina. Então compartimentalizar a vida em diferentes áreas correspondentes a diferentes cadernos é uma possibilidade, mas não a única. O método bujo parte do uso de um caderno só, o que é altamente recomendável de início (Carroll, 2018), mas precisamos considerar que diferentes contextos como casa e trabalho podem demandar maior ou menor proteção do conteúdo - ainda mais se o conteúdo forem informações pessoais.
Portanto, se você tem um motivo para usar cadernos, sistema de organização, entendimento do seu fluxo de trabalho e do contexto em que deseja usar seus cadernos, já pode criar o seu próprio ecossistema.

Criando o seu ecossistema
Um ecossistema de cadernos que possibilite que você capture, processe, organize e registre ideias precisa ser pensado como uma integração das atividades ao longo do dia. O ideal é pensar bem na função para que você não perca tempo tentando lembrar ou decidir em qual caderno fará a anotação. Basicamente, vale considerar:
Uma caderneta para captura como um caderno de “entrada”. Talvez o tamanho pequeno A6 possibilite levar para qualquer lugar sem grandes preocupações. Talvez ele não precise de um papel caro, porque a sua função é garantir que nada se perca, só isso. Ele também pode ser um diário de bordo (Kleon, 2013), onde você registra as atividades do dia, recolhe frases e aleatoriedades da vida.
Um caderno A5 para elaboração e desenvolvimento das ideias próprias pode ser o lugar de pensar sobre o que você leu, sobre o que assistiu e ensaiar caminhos para artigos, roteiros ou aulas. Ele pode ser o seu Bujo (Carroll, 2018) também!
Caderno A5 para processar sentimentos ou fazer as páginas matinais, conforme aprendemos no Caminho do Artista (Cameron, 2017).
Embora pareçam muitos cadernos - porque são mesmo! - você pode usar uma capa Midori para reunir alguns cadernos no mesmo lugar. Existem diversas opções no mercado e também a possibilidade de você fazer a sua (há vários vídeos na internet explicando o processo). Estou usando a capa artesanal de couro sintético, produzida pela Bia do Preteliê - que recebi quando tinha uma parceria com a marca, mas continuo falando a respeito porque realmente gosto dos produtos. E, apesar de Bia não comercializar mais esse produto, os cadernos e capas do Preteliê são de qualidade e recomendo mais do que as marcas industriais. Essa capa Midori tem mais de cinco anos de uso!
Também cabe considerar as diferentes experiências ao longo do dia, ligadas não apenas à função, mas à forma do caderno (tamanho, peso, formato), aos tipos de folha (lisa, pautada, pontada), ao tipo de papel e à gramatura e à cor. Tudo isso deve ser levado em consideração junto com os objetos que serão usados pra escrever; no meu caso, que uso preferencialmente canetas-tinteiro e de gel, tomo muito cuidado porque há papéis que não transferem imediatamente, mas depois de uns anos ficam um horror!
Em suma: espero que você se anime de criar um ecossistema de cadernos que seja intencional e ajude no seu processo criativo!

Extra: MEU SISTEMA ATUAL USANDO 6 CADERNOS
Ideias: Cadernera de capa flexível e papel polen pontado (cerca de 5 por ano)
Páginas matinais: Caderno TIPO Moleskine 21 x 14 cm pautado, capa dura de qualquer cor (cerca de 3 ou 4 por ano).
Bullet Journal: Caderno TIPO Moleskine 21 x 14 cm sem pauta, capa dura, geralmente, da cor vermelha ou amarela (1 por ano)
Diário de pesquisa: Caderno TIPO Moleskine 21 x 14 cm sem pauta, capa dura da cor roxa (cerca de 2 ou 3 por ano)
Fichamento
Diário de leitura
[SEMANA #21] ATUALIZAÇÃO SOBRE A PESQUISA
Um aspecto desafiador da pós-graduação é a contradição no quesito férias. Tecnicamente, não há férias, é tudo corrido. Na prática, não parar é impraticável. Mas, por exemplo, o prazo do artigo que estou escrevendo é 28/02. Então, bem, a pesquisa caminha, mas a vontade de simplesmente descansar é grande! Pode parecer que o intervalo entre dezembro e março seja grande, mas tirando as festas e todo o cansaço de fim/início de ano, o tempo de descanso é bem limitado. Quando se recebe bolsa, fica bem claro que não há décimo terceiro e férias; geralmente é o intervalo pra ajustar uns passos da pesquisa pra além das demandas. Mas como há poucas bolsas e muita gente nos programas ou recém-egressos, as exigências vão pra outro patamar. Pessoalmente, tenho enfrentado muitos shutdowns (crises de sobrecarga sensorial), mas sigo firme! Então é isso: seguimos na jornada crocodiliana! Alimentar a motivação é um ensinamento importante também!
O QUE ESTOU LENDO/ASSISTINDO/OUVINDO/JOGANDO
Lendo: Nova (Delany, 2023).
Assistindo: Star Trek - Academia da Frota Estelar - T1 E1
Ouvindo: Diorama (Silverchair, 2002), The Gold Medal (The Donnas, 2004).
Jogando: Tetris mobile
¿CONJURADORA OU COCODRILO?
Crocodilo!
Essa semana, a Kaoru chegou com a informação de que nossa musa Daniela Mercury tem um bloco de carnaval chamado Crocodilo!ERROS TAMBÉM NOS ENSINAM
Saiba que essa conversa só existe porque você também está aqui comigo. Então, se você também pira, erra, experimenta e se interessa por pensar em questões de pesquisa, artes, conjuração ou escrita acadêmica fora da sua cabeça, compartilhe suas dúvidas, angústias e notas para mantermos o diálogo dinâmico! Vai que isso te ajuda, me ajuda e nos eleva como comunidade? Se essa conversa fizer sentido, entre na conversa e considere também espalhar a palavra por aí com gente que também sente angústia ou morre de medo de escrever textos acadêmicos ou de fazer pesquisa! Ah, e se você gostou de algo em particular ou gostaria de sugerir um tema, ficarei contente em saber mais sobre isso! Sei que estou em falta com vocês, mas prometo responder os comentários! Não desista!
Obrigada pela leitura.
Até mais!
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Textos públicos sobre cultura pop, numa perspectiva feminista e nerd, no Preta, Nerd & Burning Hell.
Conteúdo público uma vez ou outra, lá no Instagram.






Meu ecossistema de cadernos é gigante e não consigo alimentar tudo. Mas sigo tentando. Tenho 1 caderno de sonhos, 1 geral da faculdade, 1 do estágio, 1 para anotações de reunião de trabalho e outro pra formações do trabalho, 1 para pós lato sensu, 1 para os cursos extras que faço, 1 para liga acadêmica, 1 daquele exercício de escrever textos de 3 páginas (do caminho do artista), 1 de anotações sobre meus sentimentos (que uso pra terapia e pra me planejar) e recentemente arrumei um pra escrita cartográfica, que é um exercício de anotar leituras, frases, afetos e afins.
Assim, de sonhos, cursos e de textos eu uso menos. Mas quero que eles durem muito.
Das formações do trabalho eu uso o mesmo desde que comecei, ainda não troquei mas ele é aquele de 10 matérias e está pela metade. Mas em compensação das anotações de reunião tenho que repor de 3 em 3 meses.
Da faculdade troco todo semestre, mas uso o mesmo para todas as matérias e uso canetas de diferentes cores. Do estágio troco por semestre tbm, mas ele é de evolução de paciente, então tem muita coisa, além das anotações da supervisão. Da Liga Acadêmica é só pra anotar dúvidas, reuniões, ideias mas é bem tranquilo.
Da pós quero seguir com ele até o final, que termina em agosto. Acho super possível.
Dos sentimentos tenho usado bastante, ele é sem pauta, mas uso pra entender minhas metas, fazer exercícios da terapia e planejar meus objetivos. Até planejamento do meu projeto final da primeira faculdade tem lá.
E por fim o de cartografia que eu ainda estou lendo textos pra entender como ele vai funcionar. Mas a ideia veio do fato de eu querer atender na esquizoanalise e ter muita dificuldade de entender o Deleuze e o Guattari. Percebi que precisava parar de entender e sentir mais. Então estou fazendo o exercício de cartografar, pra olhar as coisas de outra maneira.
Alguns podem durar a vida inteira, outros tem prazo de validade, uns continuam em outras páginas. Mas a única dificuldade que tenho tido ultimamente é de carregar esse tanto de caderno quando fico muitos dias fora.
Adorei o seu post. Eu abracei a ideia do bujo. Uso ele tanto num caderno costurado, que eu mesma faço, quanto nas capas com sistemas de elásticos. Gosto de usar o papel marfim da Chamex. Uso canetas tinteiro e de gel nele e elas não transferem.