#18| O que acontece quando “nós” chegamos “lá”?
Uma versão em prosa das “palmeiras” e do “sabiá”, porque nem todo mundo sabe que Gonçalves Dias era negro.

ANNEDOTA
Tudo começou numa aula com poucas alunas e um aluno, todo mundo com utopias acadêmicas. Nessa turma, cada pessoa tinha, pelo menos, uma “tag” (identidade política) identificando que é negra, mulher, gay, e eu que, claro, “fico um pouco violenta quando jogo o jogo das tags” (Doechii, 2020), porque sou tudo ao mesmo tempo e, pra mim, “tudo é pessoal”1.
Nesse contexto, a professora começou a divagar sobre a “questão da mulher” e dos feminismos na contemporaneidade, como algo preso ao problema de inserção ou exclusão de diferentes identidades além da “mulher cisgênero branca”. Pra mim esse não parecia um problema verdadeiro, já que as questões relacionadas aos feminismos, à presença de mulheres Negras, Indígenas, trans e “com deficiência” vêm sendo teorizadas e debatidas seriamente há muito tempo e noutra perspectiva.
Àquela altura, eu já sabia que existe um tipo de feminismo civilizatório que objetiva igualdade na opressão (Vergès, 2020). Então comecei a formular a ideia mentalmente, quando a professora avançou pra falar sobre mulheres dissidentes serem internadas em conventos ou outros tipos de instituição por suas famílias, na modernidade. Quando olhei para o lado, parecia que não era só pra mim que faltava ar. Senti como se tudo tivesse congelado à minha volta, como uma sequência do Mercúrio (Pietro Maximoff), irmão da Feiticeira Escarlate. Então, voltei a olhar pra frente.
Vi a mente da professora voltando de muito longe, quando ela disse que, se vivesse em outro tempo, provavelmente seria internada num convento. Ninguém reagiu. Ela continuou elocubrando e jogou a bola pra nós: “E, vocês, já pararam para pensar no que estariam fazendo se estivessem no século XVII?”.
Eu sorri, incrédula, porque responder com palavras soaria rude.
As demais pessoas, rígidas, com os olhos secos, agiram como se a pergunta fosse retórica. E, como diria o meme da Beyoncé: “simplesmente não reaja”. Você reagiria?
Afinal, quem somos nós?
Por vezes, a vida parece uma metanarrativa, tanto que, naquele dia, eu poderia bem ser a personagem que quebra a quarta parede e se conecta com o público só com o olhar de choque, sabe?
Mas apesar de “rir de nervoso”, de forma alguma, compartilho essa situação para ridicularizar a professora (até porque sou professora e me equivoco também). Já cantava Pitty (2003): “Quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra”.
Na verdade, essa situação é interessante para pensarmos sobre o que aconteceu depois que pessoas negras passaram a ingressar em maior número no ensino superior, enquanto o corpo docente se mantém majoritariamente branco.
Conforme o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep, 2024), apenas 21% dos docentes de ensino superior são negros. Uma vez que “negros” é uma categoria composta pela soma de pardos e pretos, totalizando pouco mais da metade da população brasileira (IBGE, 2022), existe um desencaixe na universidade no que se refere à presença negra ensinando e aprendendo. E isso nos leva ao que trato, primeiro, como um “problema de representação”.
A mera presença (tratada aqui como “representação”) de pessoas negras na sala de aula desacortina a questão da dicotomia “nós versus eles”, no contexto do ensino superior2. Afinal, para a professora considerar o século XVII “apenas” como um tempo de liberdade limitada, ignorando que a realidade brasileira era pavimentada pelo tráfico transatlântico e pela escravidão, provavelmente a parcela de brasileiras que ela está representando como “parte pelo todo” não é negra. Ser branca por si só não seria um problema, já que teve gente branca como parte do “nós”, congelada no tempo e espaço junto às pessoas negras.
E a questão não é o indivíduo, mas a estrutura que permite que as pessoas negras - especialmente pretas - estejam confinadas em maior número em lugares distantes da universidade e pessoas não negras, especialmente brancas, vislumbrem a carreira docente com maior certeza da concretização. Mas o fato é que a mesma estrutura também propõe caminhos de redução das desigualdades, sendo as cotas raciais uma delas.
A correção no que tange à presença negra e indígena na universidade é um ponto importante, porque escolaridade é um fator que possibilita a ascensão social. Entretanto, a mera presença, somada às Leis 10639/2003 e 11.645/2008 que instituem a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e Indígena, parece ter acirrado a noção de “nós versus eles” de forma nem sempre produtiva, especialmente porque muitos “deles” não compreendem a legitimidade dessas políticas de reparação.
Mas é certo que esse abalo ocasionou um colapso programado pela colonialidade (Vergès, 2020), pois “quando nós chegamos lá, eles mudam a linha de lugar” (Hidden Figures/Estrelas além do tempo, 2016). Isso ocasiona uma miscelânea de problemas complexos, enovelados e difíceis de elaborar, que vão além da representação, isto é, da presença, porque a diferença de distribuição de informações faz com que algumas contradições apareçam no meio da bagunça.
Pode até parecer que é apenas uma questão de identificação, de “querer se ver”, mas isso tem mais a ver com experiências diferentes contornadas por raça, gênero e classe. Mas fato é que, bem antes desse “abalo sísmico” fraturar a “torre de marfim”, a universidade como instituição que remonta à Idade Média já estava passando por esgotamentos próprios e lidando com respingos do “mundo exterior”, como a pós-verdade, think tank, produtivismo, sucateamento, desinvestimento, argumento de autoridade, dogmatismo e, claro, a direita “na crista da onda”. E “nós”, que lutamos pra sobreviver, contra imagens de controle uniformemente negativas (Collins, 2019), e coisa e tal chegamos no meio disso.
Onde é lá?
No meio da narrativa, nós chegamos com sede de saber e com os ombros cheios de responsabilidades, trauma e experiências históricas. Porém, esse “nós” não é uma massa amorfa de pessoas conectadas por uma “tag” específica. Então, fica claro que “representação”, ou seja, a presença, não é o suficiente.
Mas note também que tudo começa com a presença e precisamos defendê-la antes de tudo e a qualquer custo. Quem defende condições ideais para a inclusão provavelmente está confortável com tudo como está ou ainda não entendeu o que está rolando.
A maioria das pessoas não está pronta pra lidar com a complexidade de um corpo social, especialmente um que esteja há séculos em desvantagem. Espera-se que estudantes Negras e negros cheguem com a consciência “no lugar”, a leitura “afiada” e performem um tipo de negritude compreensível (ou seja, dentro de scripts sociais bem conhecidos). Então sim, as “pautas identitárias” podem ser exploradas por indivíduos, ressentimentos, inversões e inverdades, tudo isso se mistura - não porque “erraram os dois lados”, mas porque quando chegamos a bagunça estava posta (produtividade, IA escrevendo artigo, falta de bolsa) e agora, além de quererem imputar ao “nós” os problemas “deles”, ainda querem que fiquemos pra faxina (Ko; Ko, 2017).
Por exemplo, o filme Fantasmas do Passado/Master (Diallo, 2022) apresenta um desses problemas sociais que se reflete na universidade: uma professora branca se disfarça e autodeclara negra sem nenhum questionamento. E pior: como supostamente Negra, ela oprime pessoas negras com a alegação de rigor intelectual. Por mais absurdo que pareça, esse tipo de fraude no que se refere à autoidentificação racial é, na verdade, uma consequência do racialismo que não foi criado para fazer sentido, mas pra confundir. Inclusive, muitas teorias antigas voltaram com tudo, nesses dias, a partir das linhas não tão bem delineadas (graças às políticas de embranquecimento) do que significa ser uma pessoa negra. Esse tipo de desserviço para a sociedade exemplifica como o individualismo possibilita que alguém se beneficie da bagunça invertendo a realidade.
Realmente, nesse sentido, observamos que existe um esforço teórico, mercadológico (porque há vendas envolvidas) e político (ataque à política de cotas) para a manutenção da massiva presença branca no ensino superior. Mas e se, em vez de atacar as cotas porque existem fraudadores, houvesse uma punição severa a tais condutas antiéticas? E quantos professores negros no ensino superior são contemplados com bolsa de produtividade? E por quê? Enfim, atacar a raiz dos problemas precisa ser o nosso norte, mesmo que o colapso esteja em curso, precisamos lembrar que o caos é distração.

O lugar, portanto, é literalmente a universidade. Mas também é um lugar simbólico, muitas vezes, de experiências horrendas, de tratamento desigual, de sabotagens, longe de qualquer noção idílica de “onde canta o sabiá”. Existe quem pense que “o inimigo agora é o homem branco hétero-cis” (Guadagnino, 2025), mas não é difícil perceber que essa conclusão é equivocada. E como não seria? As premissas incluem a ideia de que “o clima no ensino superior esses dias” (Guadagnino, 2025) subtraiu o espaço, o reconhecimento e o poder desse grupo de dizer “certas coisas” sem consequências. O que falta nessa equação, portanto, é que “eles” estão desmerecendo a presença de outras vozes, ou seja, a conquista de direitos dos “outros”, a partir de falas ressentidas sobre cerceamento, identitarismo, queda na qualidade e “problema metodológico”. Tudo para disfarçar questões raciais e egóicas e agarrar o último fiapo do mundo como conheciam.
Mas o mundo não mudou o suficiente e o sistema econômico é o mesmo, então as noções de “substituição”, de “mérito” e a sensação de “falta de liberdade” são distorções desesperadas. Vez ou outra, elas engancham em indivíduos, pesquisas e metodologias considerados “outros”, mas cada vez mais gente quebra a quarta parede e a situação fica mais vexatória pro protagonista da panaceia.
Claro, representação não é o fim, mas sem dúvida, o direito de estar é um degrau importante. Depois disso, observemos que, enquanto um professor negro carrega cem por cento da responsabilidade pelo que é bom, ruim, ético e antiético de uma “raça inteira”, professores brancos performam diferentes interesses, formas de poder e ética com a liberdade de serem sujeitos em vez de uma raça. Enquanto essa for a “nossa” realidade “lá”, nós não estaremos prontas pra falar sobre representatividade, menos ainda pra ir além disso.
E o que acontece se reagir?
Sem dúvida, o episódio que abre essa reflexão é um átomo na vastidão de acontecimentos do multiverso. O valor nisso está na defesa de que tanto problemas como soluções devem ser abordados desde o “infinito particular” (Monte, 2006) duma egotrip, até o geral, porque a vida privada e a pública não são um par de opostos, mas polos dum jogo de escala. Assim, o que acontece numa sala de aula reflete algo muito maior: disputas discursivas em curso.
Por vezes, as pessoas se perdem no meio do jogo de escalas e esquecem o acúmulo de conhecimento, de lutas históricas e acreditam mesmo que tudo passou e tudo é “pós”, mas esse não é o problema real. O problema é o colapso programado, a crise coincidir com o acesso da classe trabalhadora, negra, indígena, com deficiência. E uma consequência imediata desse colapso é que os professores precisam se preparar para lidar com a complexidade, suas contradições, preconceitos, resistências, interesses, medo da escassez e disputas de um modo completamente diferente do que conheciam.
E quanto a nós, a nossa função é lidar com as contradições e alinhar o pessoal e o coletivo; compreender que empoderamento é a junção de subjetividades saudáveis, conscientes, críticas, alinhadas como uma coletividade que se reúne para mudar a própria história.
[SEMANA #18] ATUALIZAÇÃO SOBRE A PESQUISA
Essa semana, eu estava lendo um texto precioso intitulado “Doechii and the Misogynoir Behind Industry Plant Talk” (Blackpolitan; Faulkner, 2026). O texto é precioso por diversas razões, e precisamente porque a argumentação segue uma linha histórica para demonstrar a origem colonial dos ataques à rapper Doechii: mulheres Pretas são corporificadas (reduzidas à função biológica, força e procriação) como um modo de nos afastar de atividades intelectuais (Ko; Ko, 2017). Perguntas importantes são feitas para evidenciar o problema: por que é mais fácil aceitar que Satã ou “a droga” escreveu as letras do que uma mulher Negra? Por que é tão importante descredibilizar o trabalho dela? Qual o papel da violência intra-racial nesse tipo de situação? Vale lembrar que essa onda de descredibilização e alegações de plágio e acusações de falta de talento também marca a trajetória de Beyoncé e outras cantoras Negras que alcançam sucesso global. Chinedu Faulkner (2026) recupera o clássico When Chickenheads Come Home to Roost, de Joan Morgan (2000), para abrir uma conversa antiga sobre as estratégias de destruição que incidem sobre uma mulher Negra que “vence as estatísticas” no “mainstream”. Bom, esse texto me ajudou a pensar em caminhos de abordar esse problema que nos EUA chamam de “misogynoir” a partir da perspectiva multidimensional (Ko, 2019), ou seja, evitando a conexão de opressões e pensando em cada uma como uma faceta da “mesma criação”. E, por falar em Aph Ko (2019), a editora Autonomia Literária lançou a versão traduzida de Aphro-ism: cultura pop, feminismo e veganismo negro (Ko; Ko, 2025). Sobre isso, duas coisas:
Se tivermos mais uma assinatura paga da news essa semana, prometo resenha da versão traduzida!
Caso você não conheça a Aph Ko, pois não participou do nosso grupo de estudos em 2020, tudo bem! Recomendo os seguintes conteúdos:
Por que não jogarei Pokémon Go? - escrevi esse ensaio em 2016, a partir da perspectiva vegana antirracista, sensibilizada por Ko.
Sobre a liberação animal (Aph Ko) -traduzi em 2017
Aphro-ism: veganismo negro, Black Lives Matter e outros temas. - minha resenha em vídeo do Aphro-ism em 2019.
RACISMO e veganismo. vamos discutir uma teórica negra foda? Aph Ko e a crítica ao interseccional - vídeo do Vegetal Vermelho (2020)
A simbiose entre humano e não humano por meio da estética ecogótica pós-colonial de O colonizador, de G. G. Diniz (Quiangala, 2025).
O QUE ESTOU LENDO/ASSISTINDO/OUVINDO/JOGANDO
Lendo: Raybearer: O Dom do Raio (Ifueko, 2024) e When Chickenheads Come Home to Roost: A Hip-Hop Feminist Breaks It Down (Morgan, 2000).
Assistindo: Depois da Caçada/After the Hunt (Guadagnino, 2025), duas vezes!
Ouvindo: ando me sentindo “bem capixaba”, então senti saudades do álbum Casaca (Casaca, 2001), mas também “bem professora de literatura”, então teve Memórias, Crônicas e Declarações de amor (Monte, 2000), teve Barulhinho Bom (Monte, 1996), e ele, sim, sempre volta o álbum Consign to Oblivion (Epica, 2005). No mais, a pesquisa segue com rap: Ebony, Duquesa e AJuliacosta!
Jogando: Mortal Kombat 11 (Warner Bros. 2019) - vencer uma “torre klássica” traz um conforto e tanto!
CONJURADORA OU COCODRILO?
Conjuradora!
A conjuradora dessa semana é a aquariana Angela Davis, que norteia nossos espíritos radicais, por meio de perguntas pertinentes e convites à reflexão, como “imagine um mundo sem prisões” (Davis, 2018). Pra mim, essa proposta foi um divisor de águas teórico, como escrevi no ensaio “Acessar o Afrofuturismo” (Quiangala in nascimento, 2019). Também falei um pouco sobre isso lá na Boitempo em 2019, caso queira conferir. Parte do encanto é que a figura da filósofa - além de ser fotogênica, como disse a pesquisadora Raquel Barreto (2005) certa vez - está relacionada à sua habilidade de demonstrar que a mudança não é apenas necessária, ela é possível, desde que imaginemos. Imaginar é o primeiro passo para materializar e esse processo tem tudo a ver com conjurar!
ERROS TAMBÉM NOS ENSINAM
Saiba que essa conversa só existe porque você também está aqui comigo. Então, se você também pira, erra, experimenta e se interessa por pensar em questões de pesquisa, artes, conjuração ou escrita acadêmica fora da sua cabeça, compartilhe suas dúvidas, angústias e notas para mantermos o diálogo dinâmico! Vai que isso te ajuda, me ajuda e nos eleva como comunidade? Se essa conversa fizer sentido, entre na conversa e considere também espalhar a palavra por aí com gente que também sente angústia ou morre de medo de escrever textos acadêmicos ou fazer pesquisa! Ah, e se você gostou de algo em particular ou gostaria de sugerir um tema, ficarei contente em saber mais sobre isso!
Obrigada pela leitura e, especialmente, pela paciência com a minha demora pra responder os comentários!
Até mais!
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É bastante comum dizer a mulheres que somos emocionais e a pessoas negras que transformamos tudo em algo sobre raça, né?
E sim, somos todas, todos e todes paranóicos por diferentes razões, todas elas motivadas por uma realidade material absurda. Mas há setores que têm sede de poder perversa e fome por protagonismo, chutando tudo e todos do palco.







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